Volume I · edição comentada
ou o Thesouro do Feiticeiro — primeira parte, íntegra, reescrita em português de hoje a partir do exemplar de 1885. Em PDF, nas duas edições: celular e A5.
O problema
Todo mundo já ouviu falar do livro de capa preta. A avó que tinha um guardado no fundo do armário, o tio que dizia que não podia abrir depois da meia-noite, o vizinho que jurava ter visto.
Mas quase ninguém abriu. E quem abriu, fechou na segunda página.
O Grande Livro de S. Cypriano foi impresso em Lisboa pela Livraria Económica no fim do século XIX, num português de 1885 — grafia antiga, frase enrolada, palavra que ninguém mais usa. Boa parte dos sinais de malefício está escrita em latim, no meio do texto. A fama corre solta há cento e quarenta anos; o conteúdo, não.
A prova
Prometer que o texto foi reescrito não vale nada — todo vendedor promete. Então olhe você mesmo. Este é um parágrafo do capítulo do desencanto dos tesouros, do jeito que ele está no exemplar de 1885 e do jeito que ele ficou nesta edição.
Todas as pessoas para assistirem ao desencanto do thesouro, mettam-se dentro cum triangulo, como representa a gravura acima que deve ser riscado no chão, pois que estando dentro não lhe acontece mal algum.
Todas as pessoas que forem assistir ao desencanto do tesouro devem meter-se dentro de um triângulo, riscado no chão — como representa a gravura acima. Estando dentro dele, não lhes acontece mal algum.
Mesma coisa dita. Frase desembaraçada, grafia de hoje.
A exceção
Reescrever a explicação é uma coisa. Mexer numa oração é outra. Para quem reza, a palavra certa importa — e essa não é nossa para trocar. Nas orações e nos conjuros não mudamos ordem de palavra, não trocamos termo, não tiramos nada. Só a grafia envelhecida.
É o mesmo trecho da grande Oração de S. Cipriano, nos dois lados:
«…se te está feita alguma feitiçaria nos cabellos da cabeça, roupa do corpo ou da cama, no calçado ou em algodão, seda, linho ou lã; em cabellos de christão, de mouro ou de herejes; em ossos de creatura humana…»
«…se te está feita alguma feitiçaria nos cabelos da cabeça, roupa do corpo ou da cama, no calçado, ou em algodão, seda, linho ou lã; em cabelos de cristão, de mouro ou de hereges; em ossos de criatura humana…»
Palavra por palavra, na mesma ordem. Só a grafia mudou.
A edição
Dois arquivos em PDF — não é livro impresso, não vai pelo correio.
A vida do santo, as instruções ao religioso, os sinais de malefício com a grande Oração de S. Cipriano, os fantasmas das encruzilhadas, o exorcismo, o desencanto dos tesouros com a relação dos cento e quarenta e oito encantos, a cartomancia, as sinas dos doze meses e a seção dos poderes ocultos — com o requerimento em que Cipriano intima Lúcifer a comparecer.
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As gravuras
O exemplar de 1885 tem trezentas e setenta e uma páginas. Todas as edições que circulam por aí trazem só o texto — as estampas ficaram para trás em algum lugar entre uma cópia e outra.
Fomos atrás de todas, uma imagem de escaneamento por vez. Encontramos quatro no primeiro volume, e devolvemos as quatro ao livro. Limpas do tom do papel, da sombra da dobra e da tinta que atravessava do verso. Nenhum traço foi redesenhado.
O que elas guardavam
O capítulo do desencanto manda a pessoa se meter dentro de um triângulo riscado no chão. E nunca diz o que escrever nele. A gravura diz: AGLA nos quatro cantos, e oito cruzes em volta da moldura. Quem lesse só o texto riscaria um triângulo vazio.
A prancha das mãos carrega um tratado inteiro que nunca chegou ao corpo do livro — a lista das sete linhas, o que cada uma significa quando está inteira, partida ou corada, e o método de dividir a linha da vida em dez graus de dez anos cada.
Esse texto ficou preso dentro das imagens por cento e quarenta anos. Agora é texto do livro.
Uma amostra
A página tem cem por cento e cinquenta milímetros — o tamanho da tela do telefone. Corpo grande, entrelinha larga, e a oração entrando inteira entre aspas angulares, em itálico, para você saber sempre o que é palavra do livro e o que é explicação nossa.
A procedência deste volume
Trabalhamos sobre o exemplar da Livraria Económica, de J. Andrade & Lino de Sousa, Travessa de S. Domingos, Lisboa — com os direitos declarados por D. Gumerzindo Ruiz Castillejo y Moreno em Barcelona, 25 de março de 1885. Domínio público.
Nas orações, não mudamos ordem de palavra, não trocamos termo, não tiramos nada. Só a grafia. Para quem reza, a palavra certa importa — e essa não é nossa para mudar.
E quando a impressão saiu borrada e a palavra se perdeu, marcamos a falha em vez de inventar o que estaria ali.
Pelo sentido e pela rima seria uma invocação a Maria. Poderíamos ter escrito e ninguém notaria. Não escrevemos. Quase toda cópia que circula por aí preenche esses buracos com chute, porque copiou de outro que copiou de outro. Quem marca a falha está dizendo que trabalhou no exemplar de verdade.
Também não suavizamos nada. Nenhum capítulo foi retirado por ser forte. Os dois trechos que descrevem sacrifício de animal estão lá, com título e contexto — só o passo a passo do sofrimento foi resumido entre colchetes, e está sinalizado na página, sem disfarce.
Índice por necessidade
Grimório não é livro de ler do começo ao fim — é livro de consultar. O próprio S. Cipriano avisa, no primeiro capítulo, que cada oração tem a sua aplicação, e que a que serve para uma coisa não serve para outra.
São dezoito blocos no livro — estes são oito deles
O que vem depois
O original de 1885 é dividido em três partes, e assim ele fica. Cada volume sai inteiro, no mesmo padrão do primeiro — nada de fatiar livro para vender pedaço.